4.2.09

Medo de amar

Esse medo faz com que as pessoas arrumem desculpas e justificativas para explicar suas inseguranças. Ele faz parte da nossa vida. Negá-lo ou inventar respostas fáceis é o que menos resolve.Todos os seres humanos possuem um grande objetivo na vida: viver em estado de pleno amor. Talvez poucas pessoas estejam conscientes da importância que o amor tem ou pode ter em sua existência. Alguns vivem o amor em sua plenitude pelo simples fato de dispor dele em abundância. Aprenderam a amar, a se entregar ao ser amado e a criar relacionamentos criativos.Infelizmente, porém, a realidade da maioria é o permanente estado de carência, de confusão emocional, de miséria afetiva. Vivem em solidão, isolados num apartamento, ou num casamento sem amor, ou em relações superficiais sem um envolvimento profundo.
O grande medo do homem moderno é o de amar, que é tão grande quanto o medo de não ser amado. Num mundo tão materialista, muitas pessoas se sentem envergonhadas de amar, como se fosse algo ridículo e bobo.
Somos seres nascidos para o amor e, no entanto, negamos na prática nossa própria essência. Cada um de nós sabe que amar alguém pode provocar uma sensação de fragilidade e dependência; a presença do outro torna-se vital, e a possibilidade de ser abandonado a qualquer momento fica tão ameaçadora que, em geral, as pessoas optam pela saída mais fácil: sabotar a possibilidade de viver um grande amor.Eis aqui um dos grandes dilemas do ser humano: queremos viver um grande amor, mas procuramos o tempo todo destruí-lo. Certamente, as tentativas de destruição não são totalmente deliberadas e planejadas, porém o que conta é o resultado final.
O medo de amar é uma praga, uma erva daninha que corrompe o coração da maioria das pessoas. E depois vêm as queixas de solidão, desilusão, sofrimento.
Imagine o caso de uma amiga. Estamos numa segunda-feira e você vê, ao longe, no corredor da faculdade (ou da fábrica, escritório ou consultório), a sua amiga Sueli. Ela está esplendorosa, radiante. Sua aura brilhante está à mostra, pulsando com todo o vigor. Ao aproximar-se dela, você a cumprimenta com entusiasmo e pergunta o que está acontecendo.
Ela responde que encontrou o homem de sua vida, alguém inteligente, culto, sensível, bonito, com uma conversa atraente, participativa, e um jeito másculo e sensual. Sueli fala do olhar meigo e penetrante do parceiro, do seu toque suave, de seus abraços (mais gostosos que um mergulho no mar em dia de sol) e, para completar, diz: “Não entendo como um homem tão especial ainda não se casou! Agora que o encontrei, tenho certeza de que vou fazer tudo para dar certo”.Ela se despede e você sai todo feliz, por ver que sua amiga, por fim, encontrou alguém capaz de motivá-la a amar e a viver um grande amor.Uma ou duas semanas depois, você a encontra outra vez e percebe que ela já não está tão radiante. Seus passos já não parecem tão firmes e, quando você lhe pergunta “Como está indo o namoro do ano?”, ela friamente responde: “Vai bem”.Você pensa: “Como um namoro com um homem tão sensacional pode ficar, em menos de duas semanas, simplesmente... bem?”Ela continua: “Estamos nos dando conta de um monte de desacertos. Acho que ele me tolhe muito; estou me sentindo sufocada, mas vamos levando”.
Vocês se despedem, e uma série de imagens de relacionamentos com pessoas especiais que você amou e das quais, por causa dessa mesma sensação de sufocamento, se separou começa a aparecer na sua cabeça.Quando você a encontra alguns dias depois, ela está visivelmente de baixo-astral, com a aparência de que algo ruim aconteceu. Antes de você falar qualquer coisa, ela diz: “Não deu certo, nós nos separamos. Foi melhor assim; pelo menos nós nos respeitamos e não nos machucamos”.Sem mais comentários, ela se despede. Cada um vai para o seu lado e você continua pensando como pôde acabar, tão rápido, algo que tinha tudo para dar certo. Ou será que foi exatamente porque ia dar certo? Não terá sido justamente por causa do medo de que desse certo?
O medo de amar existe.
Esse medo faz com que as pessoas arrumem desculpas e justificativas para explicar suas inseguranças. Ele faz parte da nossa vida. Negá-lo ou inventar respostas fáceis é o que menos resolve.Certa vez, depois de um caso amoroso mal resolvido, um rapaz muito bem-sucedido nos negócios desabafou: “Meu coração secou e está fechado”. Em todas as ocasiões fazia o maior esforço para parecer seguro, autoconfiante. Estava convencido de que jamais deixaria alguém invadir novamente seu espaço, sua vida. Talvez imaginasse que, destruindo o amor antes mesmo de ele nascer, teria chances de sair “ileso” de qualquer relação. O medo de sofrer novamente por amor era tão grande que inviabilizava uma nova relação. Por medo de sofrer, condenou-se a sofrer todos os dias a dor da solidão.O melhor, sem dúvida, é estar atento para esse medo, dar um mergulho na própria vida e perceber que, no fundo, quando alguém está decidido a ficar sozinho por medo de ser abandonado outra vez, não consegue mais enxergar o amor e tampouco tem olhos para a pessoa amada.

Roberto Shinyashiki - Psiquiatra.

3 comentários:

  1. Eu me identifiquei bastante com o seu texto. Uma vez eu terminei um namoro porque estava dando certo. Hoje eu me arrependo, e agora sempre que eu me apaixono eu não sinto mais medo de amar eu quero mesmo é que d~e tudo certo na minha vida amorosa.

    Beijos

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  2. Bom o texto, porém eu concordo em alguns pontos, pois acho muito generalizado, não acredito que de fato possamos ter esse “medo de amar” tão presente em nossa vida, pelo menos não dessa forma contextual. Acho que tudo depende da forma como se encara um fim de relacionamento que, aliás, em minha opinião um relacionamento não se acaba ele apenas deixa de dar continuidade, é menos radical e mais consensual. Mas mesmos os que “terminam” de forma radicalizada, caramba deixa a pessoa sofrer um pouco é um direito dela, se afogar em lágrimas, kkkk. Falando sério, acho que na realidade quando se saí de um relacionamento de longo prazo, ou curto prazo seja o que for o que de fato fazemos é se poupar um pouco, não pra tentar evitar sofrimento devido ao que passou poder ser vivido novamente, mas sim pelo fato de que às vezes podemos estar magoados ou ressentidos com a “outra” pessoa e não seria justo enfiarmos num novo relacionamento sem nos livramos dos fantasmas passados correndo o risco descarregar nessa outra pessoa que não tem nenhuma responsabilidade a respeito. Se de fato fosse tão generalizado assim, agiríamos dessa forma em tudo que fazemos, trabalho, vida social, vida familiar... afinal perdas, sofrimento, etc passamos e vivemos com ela diariamente seja em qual for o campo.

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  3. Concordo, é um texto generalizado, não devemos considerar isso como regra, há casos e casos. Quando o li, identifiquei pessoas que conheci no passado e pessoas do meu atual convivio que têm esse medo. Talvez por já ter vivido uma desilusão, uma decepção, hoje preferem se "fechar" para evitar um sofrimento. E acho que isso acontece com muitas pessoas. Eu mesma já me fechei por esse medo, mas hoje, encaro de uma forma diferente. Respeito as decisões de cada um, mas hoje penso que não tenho porque temer algo que ao contrário de me trazer sofrimento, poderá me trazer alegria, bem-estar.
    Claro que há casos e casos, e cada um deve avaliar o momento e a quem de se entregar.
    Bjs

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